..as perguntas importantes com frequência são inquietantes. Existe um comentário lindamente desagradável de Heidegger sobre o porquê de a ciência ser tão enfadonha. Ele disse que é porque ela só tem respostas”. George Steiner (FSP – 18/01/2009
Certamente a provocação de Heidegger hoje soaria diferente. Ainda que sem a amplitude que a mídia costuma proporcionar, já é possível questionar o modelo da cultura da ciência marcada pela cientificidade do século XIX que estabeleceu a separação do pesquisador da sua subjetividade. Também se indaga os processos de significação sócio-culturais que por longo tempo elegeram a classe dos cientistas como detentora única das respostas para as perguntas do mundo.Ora, se somente um lado fala, não haveria mesmo como conter a chatice do monólogo.
Quebrar o paradigma é considerar que o conhecimento científico é resultado e resulta um processo histórico e cultural, sendo determinante ao desenvolvimento das sociedades e à construção de múltiplas significações. Ciência e a tecnologia, no mundo moderno, constituem-se em mercadorias que são produzidas e disputadas por grandes setores da economia e, em se tratando de jornalismo, é necessário perceber que as fontes, sejam elas pesquisadores, cientistas ou técnicos, possuem diferentes vinculações em tais contextos.
É entender que os cientistas produzem, vivem, comunicam o seu trabalho e, no exercício de suas atividades, instituem outra forma de comunicação sob um gênero de discurso, o científico. Tal discurso possui características próprias, dinâmicas e termos específicos acessíveis à comunidade científica que é permeada por inúmeros atravessamentos. A comunicação da ciência para fora dela é feita através de outro discurso sustentado pelo consenso e conceitos previamente discutidos. Ao fazê-lo são apresentadas não as dinâmicas internas, não os processos e os erros, mas os resultados das suas pesquisas. As respostas ao mundo, enfim.
Cabe aos jornalistas questionarem tais respostas naquilo que elas têm de prontas. Ou seja, se a eles cabe buscar apresentar e transformar o discurso da comunidade científica, clarear as hipóteses e teorias da pesquisa científica para o público, aproximando-se lexicamente e simplificando para permitir o entendimento, nada mais justo que mergulhe no espaço da produção de ciência permitindo a leitura e a revelação dos seus bastidores. E aí mora o conflito. Parte da comunidade científica não sabe responder e parte da comunidade dos jornalistas não sabe perguntar. Parece paradoxal numa sociedade em que todos enviam e recebem mensagens; e onde a convergência tecnológica no jornalismo significa informações jornalísticas circulando, velozes, na rede mundial.
Talvez a costura dialógica esteja a cargo daqueles, em ambos os lados, dispostos a ouvir e a responder. Um tempo na contramão da velocidade da sociedade globalizada, mas necessário para que o conhecimento se produza entre os diferentes. É achar o fio da mediação, como diria Latour, e fazer diferente do que foi feito até então.